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Sportscenter, à meia-noite, na ESPN Brasil
Vladir Lemos
- 14h39
- 07Dec
O último domingo, Magrão, o dia da tua partida, durou uns dez anos. E como foi difícil atravessá-lo. No sábado, um tanto sorrateiro até, entrei na igreja de Santo Antonio do Embaré e rezei por ti. Algo me dizia que precisavas disso.
Ali, em meio a quietude inquietante dos templos, tive comigo a certeza de que mesmo muito baixinho, quase em silêncio, todas as preces que estavam sendo ditas em teu nome, juntas, seriam capazes de fazer mais barulho do que todos os estádios cheios que um dia tua elegância foi capaz de emocionar.
De lá pra cá, tanto foi dito, escrito e mostrado em teu nome. Tua figura, de repente, ganhou uma onipresença, e como ela te fez justiça. O velho Michel, na segunda, batucou um texto bonito, como sempre, falando dessa coisa inestimável - mas nem sempre percebida - que é estar ao lado de um gênio. Eu li, e fiquei lembrando de você, ali, sentado na cadeira ao lado da minha, humildemente envaidecido com a maneira como levamos o compromisso de fazer um programa de televisão juntos toda semana. Como foi bacana meu amigo.
Admirava em segredo a tua devoção com esse nosso encontro semanal por saber muito bem que eras esse tipo de pessoa rara que por motivo nenhum nesse mundo aceita fazer o que não gosta, e muito menos o que não lhe dá prazer.
Teimosamente vou te esperar no corredor que leva ao estúdio, mesmo sabendo que não vais chegar. Fecho os olhos agora e vejo você se aproximar, sem pressa, e dizer com um sorriso no rosto: "Fala Véio Mussa". Magrão, você não gostava da limitação dos scripts e dos roteiros e esse ditador terno aqui sabe que ficou te devendo um pouco de anarquia, no melhor dos sentidos. Teria sido a melhor maneira de provar que tinha me rendido ao seu estilo.
Quando dizia que esse teu jeito de não se preocupar com a vida me causava inveja não se tratava de uma metáfora. Saiba que vou carregar esse ensinamento comigo mesmo que ele não passe de um plano mirabolante que eu jamais seja capaz de colocar em prática.
Que saudade eu já sentia de invadir as madrugadas em tua companhia em uma mesa de bar, e nem preciso dizer que o nosso Xico também. Pra alguém que tinha orgulho da boemia se perder numa madrugada faz todo sentido, mais até do que essa coisa de partires num domingo em que o Corinthians ganhou um título. Que importa isso, se te perdemos um pouco?
Digo um pouco pois sei que vais continuar por aí, teu rosto permanecerá estampado nas camisas dos jovens de corpo e espírito. És uma bandeira. E pensar que nas nossas noites inundadas de risos, conversas, ideias e ideais, vinham à nossa mesa os bêbados te saudar. Os caretas a confessar a adoração pelo Doutor, apesar das juras de amor por um time que não era o teu. E vinham as moças, os velhos, a implorar uma fotografia. Vinham os loucos pedir pra beijar tua mão. E nos embasbacava a tua habilidade pra lidar com tudo isso, como quem dava um daqueles toques de calcanhar, surpreendentes, quase impossíveis.
Parta em paz. Você merece mais do que essa terra pode te dar. A ladainha do futebol permanecerá a mesma e do jeito que a coisa vai tua imagem e teus lances parecerão cada vez mais geniais. Ficará a tua lição de que o homem deve estar sempre acima de qualquer time. Ficará a tua lição de quem teve a coragem de fazer tudo que quis. o exemplo de ser sempre você mesmo. De agir em absoluta sintonia com o que se pensa. Nem que fosse por dez segundos, como gostavas de dizer.
Você, Magrão, foi a mais pura tradução do que a inteligência é capaz de fazer quando se une à arte de jogar bola. Acostumar com a ideia de que você deixou nosso time vai ser jogo duro, ô se vai.
Com carinho, do Véio Mussa.
Ali, em meio a quietude inquietante dos templos, tive comigo a certeza de que mesmo muito baixinho, quase em silêncio, todas as preces que estavam sendo ditas em teu nome, juntas, seriam capazes de fazer mais barulho do que todos os estádios cheios que um dia tua elegância foi capaz de emocionar.
De lá pra cá, tanto foi dito, escrito e mostrado em teu nome. Tua figura, de repente, ganhou uma onipresença, e como ela te fez justiça. O velho Michel, na segunda, batucou um texto bonito, como sempre, falando dessa coisa inestimável - mas nem sempre percebida - que é estar ao lado de um gênio. Eu li, e fiquei lembrando de você, ali, sentado na cadeira ao lado da minha, humildemente envaidecido com a maneira como levamos o compromisso de fazer um programa de televisão juntos toda semana. Como foi bacana meu amigo.
Admirava em segredo a tua devoção com esse nosso encontro semanal por saber muito bem que eras esse tipo de pessoa rara que por motivo nenhum nesse mundo aceita fazer o que não gosta, e muito menos o que não lhe dá prazer.
Teimosamente vou te esperar no corredor que leva ao estúdio, mesmo sabendo que não vais chegar. Fecho os olhos agora e vejo você se aproximar, sem pressa, e dizer com um sorriso no rosto: "Fala Véio Mussa". Magrão, você não gostava da limitação dos scripts e dos roteiros e esse ditador terno aqui sabe que ficou te devendo um pouco de anarquia, no melhor dos sentidos. Teria sido a melhor maneira de provar que tinha me rendido ao seu estilo.
Quando dizia que esse teu jeito de não se preocupar com a vida me causava inveja não se tratava de uma metáfora. Saiba que vou carregar esse ensinamento comigo mesmo que ele não passe de um plano mirabolante que eu jamais seja capaz de colocar em prática.
Que saudade eu já sentia de invadir as madrugadas em tua companhia em uma mesa de bar, e nem preciso dizer que o nosso Xico também. Pra alguém que tinha orgulho da boemia se perder numa madrugada faz todo sentido, mais até do que essa coisa de partires num domingo em que o Corinthians ganhou um título. Que importa isso, se te perdemos um pouco?
Digo um pouco pois sei que vais continuar por aí, teu rosto permanecerá estampado nas camisas dos jovens de corpo e espírito. És uma bandeira. E pensar que nas nossas noites inundadas de risos, conversas, ideias e ideais, vinham à nossa mesa os bêbados te saudar. Os caretas a confessar a adoração pelo Doutor, apesar das juras de amor por um time que não era o teu. E vinham as moças, os velhos, a implorar uma fotografia. Vinham os loucos pedir pra beijar tua mão. E nos embasbacava a tua habilidade pra lidar com tudo isso, como quem dava um daqueles toques de calcanhar, surpreendentes, quase impossíveis.
Parta em paz. Você merece mais do que essa terra pode te dar. A ladainha do futebol permanecerá a mesma e do jeito que a coisa vai tua imagem e teus lances parecerão cada vez mais geniais. Ficará a tua lição de que o homem deve estar sempre acima de qualquer time. Ficará a tua lição de quem teve a coragem de fazer tudo que quis. o exemplo de ser sempre você mesmo. De agir em absoluta sintonia com o que se pensa. Nem que fosse por dez segundos, como gostavas de dizer.
Você, Magrão, foi a mais pura tradução do que a inteligência é capaz de fazer quando se une à arte de jogar bola. Acostumar com a ideia de que você deixou nosso time vai ser jogo duro, ô se vai.
Com carinho, do Véio Mussa.
- 17h51
- 27Oct
Bar do Zé Ladrão, dia desses, sete da noite. Enquanto o português - dono do lugar - segue teimando em convencer os desavisados de que é francês, a sua mais tradicional freguesia vai chegando. Alguns com a dor do dia sobre os ombros, mas não todos. Afinal, o Bar do Zé não é praia mas tá cheio de personagens que fizeram a invejável escolha de levar a vida... boiando.
Estava eu de passagem. Na pressa. Tinha pensado até em desviar a rota, usar a outra calçada, mas eis que a rua se revelou ausente de automóveis e ao atravessar fiquei cara a cara com o bajulado estabelecimento comercial. Num primeiro instante me contive. Parei na porta. Cumprimentei muitos dos presentes com um olhar festivo. Por incrível que possa parecer, resisti.
Mas não poderia negar ao seu Zé uma reverência maior. Senti no aperto de mão que ele estava louco pra falar do Corinthians. O empate com o Inter ainda fresco na memória praticamente lhe transbordava dos olhos. Acontece que a sabedoria do seu Zé é imensa e ele jamais cairia na arapuca de fazer um comentário futebolístico pra todo mundo ouvir, a liturgia do cargo não permite.
É quase como dizer que dono de bar que se preza não bebe, nem fala de futebol com entusiasmo. Fui amigo. Junto com o sorriso lhe recitei baixinho: " Eu te disse que o Alex ia dar caldo". Exemplarmente contido o Zé não deixou que a resposta fosse além de um sorriso.
Fiquei ali por uns minutos, num esforço tremendo para driblar as colocações e as gracinhas que os mais chegados costumam dizer a quem passa os dias debruçado sobre as coisas do futebol. Mas devo dizer que, como sempre, me diverti notando o micro-cosmos do futebol que se esconde em qualquer botequim. O jogo e sua onipresença.
Na minha breve permanência no recinto vi de tudo um pouco. O relaxamento pomposo que invadiu a alma dos torcedores do time da Vila, quando o Edson, de cabelos brancos como a mais tradicional camisa santista esnobou seu interlocutor dizendo:
_ Nem adianta me provocar. Ó, tô numa espécie de pré-temporada. Só vou voltar a falar sobre futebol em dezembro, tá?
Vi ali também o Botafogo carregando o fardo imenso de ser tido como um campeão improvável, sendo clássico ao seu modo. Vi o Palmeiras mexer com o brio dos seus torcedores, que confabulavam alvoroçados tentando entender o que tem se passado na Academia de Futebol, divididos entre o respeito e a repulsa pelo modo truculento de seu treinador, outrora tão vitorioso e familiar.
O que tenho dizer ao seu Zé, e naquele instante por respeito não pude, é algo muito simples. Que o Corinthians não caia no conto de que a tabela lhe reserva facilidades. E esse não é um ensinamento qualquer. Vi mais até, porque nos bares as maldades ludopédicas são ditas sem o menor pudor.
Vi o embate do tricolor com o Vasco sendo encarado mesmo como dose pra Leão. Maldade tamanha que o sujeito lá da porta, quando eu já estava de saída, interpretou assim:
_ Olha, se o Leão ganhar do Vasco eu não me empolgo, não! Não terá feito nada além de confirmar que é um técnico que costuma dar certo no início.
Depois parti, carregando comigo a certeza de que é cruel e explícita essa beleza do futebol que se destila nos bares.
Estava eu de passagem. Na pressa. Tinha pensado até em desviar a rota, usar a outra calçada, mas eis que a rua se revelou ausente de automóveis e ao atravessar fiquei cara a cara com o bajulado estabelecimento comercial. Num primeiro instante me contive. Parei na porta. Cumprimentei muitos dos presentes com um olhar festivo. Por incrível que possa parecer, resisti.
Mas não poderia negar ao seu Zé uma reverência maior. Senti no aperto de mão que ele estava louco pra falar do Corinthians. O empate com o Inter ainda fresco na memória praticamente lhe transbordava dos olhos. Acontece que a sabedoria do seu Zé é imensa e ele jamais cairia na arapuca de fazer um comentário futebolístico pra todo mundo ouvir, a liturgia do cargo não permite.
É quase como dizer que dono de bar que se preza não bebe, nem fala de futebol com entusiasmo. Fui amigo. Junto com o sorriso lhe recitei baixinho: " Eu te disse que o Alex ia dar caldo". Exemplarmente contido o Zé não deixou que a resposta fosse além de um sorriso.
Fiquei ali por uns minutos, num esforço tremendo para driblar as colocações e as gracinhas que os mais chegados costumam dizer a quem passa os dias debruçado sobre as coisas do futebol. Mas devo dizer que, como sempre, me diverti notando o micro-cosmos do futebol que se esconde em qualquer botequim. O jogo e sua onipresença.
Na minha breve permanência no recinto vi de tudo um pouco. O relaxamento pomposo que invadiu a alma dos torcedores do time da Vila, quando o Edson, de cabelos brancos como a mais tradicional camisa santista esnobou seu interlocutor dizendo:
_ Nem adianta me provocar. Ó, tô numa espécie de pré-temporada. Só vou voltar a falar sobre futebol em dezembro, tá?
Vi ali também o Botafogo carregando o fardo imenso de ser tido como um campeão improvável, sendo clássico ao seu modo. Vi o Palmeiras mexer com o brio dos seus torcedores, que confabulavam alvoroçados tentando entender o que tem se passado na Academia de Futebol, divididos entre o respeito e a repulsa pelo modo truculento de seu treinador, outrora tão vitorioso e familiar.
O que tenho dizer ao seu Zé, e naquele instante por respeito não pude, é algo muito simples. Que o Corinthians não caia no conto de que a tabela lhe reserva facilidades. E esse não é um ensinamento qualquer. Vi mais até, porque nos bares as maldades ludopédicas são ditas sem o menor pudor.
Vi o embate do tricolor com o Vasco sendo encarado mesmo como dose pra Leão. Maldade tamanha que o sujeito lá da porta, quando eu já estava de saída, interpretou assim:
_ Olha, se o Leão ganhar do Vasco eu não me empolgo, não! Não terá feito nada além de confirmar que é um técnico que costuma dar certo no início.
Depois parti, carregando comigo a certeza de que é cruel e explícita essa beleza do futebol que se destila nos bares.
- 18h05
- 13Oct
Neste mesmo espaço tempos atrás comentei a chegada do ex-jogador Romário ao Congresso. Vê-lo eleito deputado federal me causou temor e faço questão de lembrar a razão. Alguém que tenha desenhado a trajetória que ele desenhou nos gramados deveria pensar muito antes de permitir que as páginas mais recentes de sua biografia fossem escritas no campo político.
De lá pra cá Romário tem demonstrado muito interesse pelos assuntos que envolvem o Mundial que nosso país irá sediar. Esta semana, no Fórum Legislativo sobre a Copa 2014 realizado na Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro, falou em tom severo que o Brasil não pode se render aos interesses da FIFA, que "...precisamos colocar a FIFA em seu devido lugar".
O nobre deputado vem construindo frases de efeito que, muito provavelmente, não levarão a lugar algum. Um dia antes tinha postado em sua página no twitter o seguinte comentário: " Lei Geral da Copa é o seguinte...galera. O Brasil entra com aquilo, a FIFA entra com aquele outro aquilo... e o Brasil sifu...". O mesmo Romário que, segundo a Folha de São Paulo publicou na terça, é o único brasileiro entre os 22 integrantes do Comitê Técnico e de Desenvolvimento da entidade.
Escolhi o tema porque acredito que a mídia tem sido condescendente com o baixinho. Já ouvi por aí que ele está muito bem assessorado e, quando inaugurou seu site para fiscalizar as obras da Copa 2014 no início de agosto e lá colocou uma entrevista com o jornalista escocês Andrew Jennings, conquistou amplo espaço e elogios nos mais variados meios de comunicação. Jennings, pra quem não lembra, havia sido o responsável pela notícia do acordo feito com a justiça suiça no qual vários cartolas tinham sido obrigados a devolver dinheiro de propina recebido da falida ISL, e entre eles estaria Ricardo Teixeira.
Não quero desmerecer as atitudes de Romário, reconheço a importância de uma voz discordante a respeito do assunto no Congresso, mas acho que mesmo com toda a dificuldade de se situar em um ambiente totalmente novo e cheio de detalhes, um deputado federal bem intencionado pode muito mais. Até porque a essa altura lá se vai quase um ano de mandato.
Mas o que tem me causado maior incômodo é saber que Romário fechou acordo com uma emissora de TV e trabalhará como comentarista de futebol durante os Jogos Pan Americanos. Desconheço sua agenda, não imagino qual será a combinação de datas, e nem mesmo se ele terá direito a uma licença que o permitirá cumprir essa função. Acho isso simplesmente incompatível, seja qual for o argumento.
Arrisco-me a afirmar que os que votaram nele não esperavam vê-lo na condição de comentarista pelos próximos quatro anos. Como no Brasil o eleitor costuma aceitar todo tipo de falta de postura, estou ciente do risco enorme que corro de queimar a língua. Não vi, nem ouvi, ninguém falar nada a respeito disso. Classifico essa atitude de Romário como uma tremenda bola fora.
É claro que essa não é a única coisa esquisita que vemos por aí. Outra coisa que gostaria de comentar é a sucessão corintiana. Andrés Sanchez diz que não quer nem saber de reeleição, já nos bastidores vai deixando claro que quer continuar sendo o homem forte por trás do Itaquerão. O argumento seria o de que trabalhou muito por isso e que o novo estádio poderia virar alvo dos adversários, sofrer paralisações, e isso colocaria tudo a perder.
Ora, é muito fácil aceitar o fato de não ser mais o presidente desse jeito. Imaginem o Lula dizendo que estava em paz com sua saída mas que não abriria mão de continuar dando as cartas no famoso PAC, o nosso Programa de Aceleração do Crescimento, que de tão importante foi fundamental para sedimentar o perfil de gerenciadora de Dilma Roussef e para elegê-la presidente.
Por mais que a gente saiba que nos bastidores os mais poderosos continuarão a ser os mais poderosos, colocar a coisa nesses termos é demais. A conclusão não pode ser outra. Se o futebol anda mais cara-de-pau do que a nossa política, não será o Romário que irá salvá-lo.
De lá pra cá Romário tem demonstrado muito interesse pelos assuntos que envolvem o Mundial que nosso país irá sediar. Esta semana, no Fórum Legislativo sobre a Copa 2014 realizado na Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro, falou em tom severo que o Brasil não pode se render aos interesses da FIFA, que "...precisamos colocar a FIFA em seu devido lugar".
O nobre deputado vem construindo frases de efeito que, muito provavelmente, não levarão a lugar algum. Um dia antes tinha postado em sua página no twitter o seguinte comentário: " Lei Geral da Copa é o seguinte...galera. O Brasil entra com aquilo, a FIFA entra com aquele outro aquilo... e o Brasil sifu...". O mesmo Romário que, segundo a Folha de São Paulo publicou na terça, é o único brasileiro entre os 22 integrantes do Comitê Técnico e de Desenvolvimento da entidade.
Escolhi o tema porque acredito que a mídia tem sido condescendente com o baixinho. Já ouvi por aí que ele está muito bem assessorado e, quando inaugurou seu site para fiscalizar as obras da Copa 2014 no início de agosto e lá colocou uma entrevista com o jornalista escocês Andrew Jennings, conquistou amplo espaço e elogios nos mais variados meios de comunicação. Jennings, pra quem não lembra, havia sido o responsável pela notícia do acordo feito com a justiça suiça no qual vários cartolas tinham sido obrigados a devolver dinheiro de propina recebido da falida ISL, e entre eles estaria Ricardo Teixeira.
Não quero desmerecer as atitudes de Romário, reconheço a importância de uma voz discordante a respeito do assunto no Congresso, mas acho que mesmo com toda a dificuldade de se situar em um ambiente totalmente novo e cheio de detalhes, um deputado federal bem intencionado pode muito mais. Até porque a essa altura lá se vai quase um ano de mandato.
Mas o que tem me causado maior incômodo é saber que Romário fechou acordo com uma emissora de TV e trabalhará como comentarista de futebol durante os Jogos Pan Americanos. Desconheço sua agenda, não imagino qual será a combinação de datas, e nem mesmo se ele terá direito a uma licença que o permitirá cumprir essa função. Acho isso simplesmente incompatível, seja qual for o argumento.
Arrisco-me a afirmar que os que votaram nele não esperavam vê-lo na condição de comentarista pelos próximos quatro anos. Como no Brasil o eleitor costuma aceitar todo tipo de falta de postura, estou ciente do risco enorme que corro de queimar a língua. Não vi, nem ouvi, ninguém falar nada a respeito disso. Classifico essa atitude de Romário como uma tremenda bola fora.
É claro que essa não é a única coisa esquisita que vemos por aí. Outra coisa que gostaria de comentar é a sucessão corintiana. Andrés Sanchez diz que não quer nem saber de reeleição, já nos bastidores vai deixando claro que quer continuar sendo o homem forte por trás do Itaquerão. O argumento seria o de que trabalhou muito por isso e que o novo estádio poderia virar alvo dos adversários, sofrer paralisações, e isso colocaria tudo a perder.
Ora, é muito fácil aceitar o fato de não ser mais o presidente desse jeito. Imaginem o Lula dizendo que estava em paz com sua saída mas que não abriria mão de continuar dando as cartas no famoso PAC, o nosso Programa de Aceleração do Crescimento, que de tão importante foi fundamental para sedimentar o perfil de gerenciadora de Dilma Roussef e para elegê-la presidente.
Por mais que a gente saiba que nos bastidores os mais poderosos continuarão a ser os mais poderosos, colocar a coisa nesses termos é demais. A conclusão não pode ser outra. Se o futebol anda mais cara-de-pau do que a nossa política, não será o Romário que irá salvá-lo.
- 18h51
- 06Oct
Muito se fala na relação dos brasileiros com a seleção. Relação que não seria a mesma de outros tempos. Mas se tudo muda, porque é que justamente a nossa relação com a seleção brasileira iria permanecer intacta, imutável?
Há pouco mais de dez anos eu estava envolvido na produção de um documentário sobre os trinta anos da conquista do tricampeonato mundial no México e lembro muito bem do entusiasmo do pessoal ao ouvir da boca do José Genoino, ainda um ícone ilibado da esquerda (eu disse que o tempo muda tudo), que naquela época quando a bola rolava não tinha ideologia que resistisse. Se não me engano o depoimento foi dado ao repórter Dorival Brammont. O poder de transformação do passar dos dias é tão poderoso que nem mesmo as ideologias restaram.
A frase dita por Genoino condensava de modo preciso a relação do povo com a seleção nos idos de 1970. Não vou ficar aqui papagaiando o que estamos cansados de ouvir. Que a seleção quase não joga no Brasil, que nossos grandes nomes partem cedo para o exterior, que nossos craques estão mais interessados nos milhões do que em defender a seleção.
Pra ser ainda mais sincero digo que não tenho lembrança de ter visto um jogo contra a Argentina com tão pouco entusiasmo como foi o caso dos dois últimos. É bem verdade que a Argentina contribuiu pesadamente pra isso. Mas vem aí a Costa Rica e depois o México. Isso por acaso lhes entusiasma?
Acredito que só uma vez na era Mano Menezes essa relação pareceu revigorar. Foi na primeira convocação dele, quando a seleção foi um retrato fiel da vontade popular. Depois disso, graças a Andrés Santos e Fernandinhos, esse contentamento, essa concordância, essa cumplicidade, só diminuiram. É a impressão que tenho.
E ainda mais temos esse conflito com os clubes, que ficam sem seus jogadores mais importantes em momentos-chave. Intuo que a única coisa capaz de zelar por essa relação seria resgatar a sua versão mais apaixonante.
A única coisa capaz de mudar isso seria construir um time que nos fizesse lembrar da sublime seleção de 70 ou que nos arrebatasse como fez a de 82, o que não será viável sem uma dose gigantesca de ousadia que, infelizmente, não vislumbro em lugar algum.
O que ouvimos é que precisamos cautela para usar o talento de Lucas, que precisamos atenção porque um time mais ofensivo irá comprometer a nossa retomada de bola e diminuir o avanço dos laterais.
Tentam nos seduzir com um discurso desgastado de renovação, talvez para esconder o óbvio. A grande estratégia dos homens que comandam a seleção brasileira atualmente é montar um time para vencer, nada mais que isso.
Ao contrário dos times, que muitas vezes calam torcidas com um triunfo, a seleção sempre precisou e precisa ir além. Mais do que qualquer outra equipe sua missão não é provar eficiência - como não deveria ser para ninguém que gosta de jogar bola - e sim fazer um povo feliz em grande estilo. Foi assim que nos acostumaram, foi assim que sempre nos venderam a ideia, e agora querem nos tirar essa alegria.
Há pouco mais de dez anos eu estava envolvido na produção de um documentário sobre os trinta anos da conquista do tricampeonato mundial no México e lembro muito bem do entusiasmo do pessoal ao ouvir da boca do José Genoino, ainda um ícone ilibado da esquerda (eu disse que o tempo muda tudo), que naquela época quando a bola rolava não tinha ideologia que resistisse. Se não me engano o depoimento foi dado ao repórter Dorival Brammont. O poder de transformação do passar dos dias é tão poderoso que nem mesmo as ideologias restaram.
A frase dita por Genoino condensava de modo preciso a relação do povo com a seleção nos idos de 1970. Não vou ficar aqui papagaiando o que estamos cansados de ouvir. Que a seleção quase não joga no Brasil, que nossos grandes nomes partem cedo para o exterior, que nossos craques estão mais interessados nos milhões do que em defender a seleção.
Pra ser ainda mais sincero digo que não tenho lembrança de ter visto um jogo contra a Argentina com tão pouco entusiasmo como foi o caso dos dois últimos. É bem verdade que a Argentina contribuiu pesadamente pra isso. Mas vem aí a Costa Rica e depois o México. Isso por acaso lhes entusiasma?
Acredito que só uma vez na era Mano Menezes essa relação pareceu revigorar. Foi na primeira convocação dele, quando a seleção foi um retrato fiel da vontade popular. Depois disso, graças a Andrés Santos e Fernandinhos, esse contentamento, essa concordância, essa cumplicidade, só diminuiram. É a impressão que tenho.
E ainda mais temos esse conflito com os clubes, que ficam sem seus jogadores mais importantes em momentos-chave. Intuo que a única coisa capaz de zelar por essa relação seria resgatar a sua versão mais apaixonante.
A única coisa capaz de mudar isso seria construir um time que nos fizesse lembrar da sublime seleção de 70 ou que nos arrebatasse como fez a de 82, o que não será viável sem uma dose gigantesca de ousadia que, infelizmente, não vislumbro em lugar algum.
O que ouvimos é que precisamos cautela para usar o talento de Lucas, que precisamos atenção porque um time mais ofensivo irá comprometer a nossa retomada de bola e diminuir o avanço dos laterais.
Tentam nos seduzir com um discurso desgastado de renovação, talvez para esconder o óbvio. A grande estratégia dos homens que comandam a seleção brasileira atualmente é montar um time para vencer, nada mais que isso.
Ao contrário dos times, que muitas vezes calam torcidas com um triunfo, a seleção sempre precisou e precisa ir além. Mais do que qualquer outra equipe sua missão não é provar eficiência - como não deveria ser para ninguém que gosta de jogar bola - e sim fazer um povo feliz em grande estilo. Foi assim que nos acostumaram, foi assim que sempre nos venderam a ideia, e agora querem nos tirar essa alegria.
- 19h47
- 29Sep
Com a vossa permissão vou tratando aqui de misturar nesse caldeirão de palavras assuntos diferentes, pois que hoje acordei com um receio tremendo de ser visto como um chato. O que pode ser inevitável, eu sei. Devagar aí com a graça. Mas quero menos ainda que pese sobre essa minha cuca a culpa de não ter feito pelo menos meio artigo na intenção de obter a salvação.
Tô cansado de saber que o sujeito que se dá ao trabalho de falar sobre futebol com certa sobriedade e sem deslumbre está fadado a ser visto como um mala. Mas fazer o que se essa minha bendita consciência - seja lá o que isso for - não me dá sossego à alma?
O primeiro e mais agradável dos temas é o direito que qualquer um tem de perder gols. Não há nada nesse mundo que exista só com perfeição, o próprio mundo em si não me deixa mentir, e não seria o futebol a exceção. Você mesmo, se é metido a jogar bola, já deve ter tido seu momento Loco Abreu.
O jogador do Botafogo, que pode ser acusado de tudo menos de não ter estilo, pagou o mico? Pagou! Mas senhores, a bola é redonda e não perdoa a mínima imperfeição motora. O pior de tudo foi ver o lance do Loco Abreu comparado ao do Rivaldo. Na minha visão duas situações totalmente distintas.
O lance de Loco Abreu só esperava uma conclusão qualquer. O de Rivaldo exigia a escolha de uma maneira para concluí-lo. Ouvi de tudo, até especialista dizendo que naquela situação o camisa dez do tricolor tinha que ter enchido o pé. Rivaldo tentou o sublime. Teve a coragem de optar pelo mais difícil. Quem garante aos devotos do chutão que a bola não teria resvalado em alguém e ido parar nas arquibancadas?
E pra não dizerem que estou aqui puxando o saco do Rivaldo e pra manter viva a possibilidade de ser visto como um mala, aproveito pra dizer que nem tudo que ele faz me agrada. No jogo contra o Corinthians, por exemplo, que terminou num retumbante zero a zero, Rivaldo teve a última chance do jogo em uma cobrança de falta. Optou por bater direto pro gol e viu a bola se perder por cima do travessão adversário.
Naquela situação, ao contrário, o que me parecia mais inteligente era alçar a bola na área e deixar o bicho pegar, como fez Rogério Ceni no lance que levou o tricolor ao empate com o Botafogo no último domingo. Nem sempre a coragem de optar pelo mais difícil é sinônimo de inteligência. O grande jogador sempre se imagina capaz de tudo, só o equilíbrio o torna diferente. Jogar futebol é difícil como fez questão de lembrar o jogador do Botafogo depois da partida.
Feitas tais considerações, com as quais o nobre leitor pode concordar ou não, vou logo azedando a conversa pra não deixar passar em branco essa Lei Geral da Copa. A votação dela nos dará a medida exata do quanto estamos vendidos. Semanas atrás citei a visita de consultores alemães dizendo que o Brasil tinha que jogar duro com a FIFA. Volto a dizer, acho vergonhoso que tenha que vir alguém de fora nos dizer isso.
Veja tudo que o governo cedeu, o tamanho da cobiça dos cartolas. A entidade máxima do futebol não está brigando porque o nosso governo decidiu barrar o descalabro que é permitir a livre transferência de divisas, as isenções de impostos para a FIFA e seus comparsas. Nada disso. Teria ameaçado levar a Copa de 2014 para outro lugar porque a Lei enviada para o Congresso não retirou a meia entrada, porque o governo - que está bancando praticamente tudo - quer que as TVs que não são detentoras dos direitos do Mundial possam usar três por cento dos jogos e trinta segundos de eventos. Repito, três por cento e trinta segundos.
Melhor seria que a Copa fosse mesmo parar nos EUA, assim poderíamos alimentar a ilusão de ter resgatado uma parte ínfima que fosse da nossa soberania. De outro modo me restará a certeza de ter sido derrotado muito antes da bola ter começado a rolar, e sabe-se lá onde.
Tô cansado de saber que o sujeito que se dá ao trabalho de falar sobre futebol com certa sobriedade e sem deslumbre está fadado a ser visto como um mala. Mas fazer o que se essa minha bendita consciência - seja lá o que isso for - não me dá sossego à alma?
O primeiro e mais agradável dos temas é o direito que qualquer um tem de perder gols. Não há nada nesse mundo que exista só com perfeição, o próprio mundo em si não me deixa mentir, e não seria o futebol a exceção. Você mesmo, se é metido a jogar bola, já deve ter tido seu momento Loco Abreu.
O jogador do Botafogo, que pode ser acusado de tudo menos de não ter estilo, pagou o mico? Pagou! Mas senhores, a bola é redonda e não perdoa a mínima imperfeição motora. O pior de tudo foi ver o lance do Loco Abreu comparado ao do Rivaldo. Na minha visão duas situações totalmente distintas.
O lance de Loco Abreu só esperava uma conclusão qualquer. O de Rivaldo exigia a escolha de uma maneira para concluí-lo. Ouvi de tudo, até especialista dizendo que naquela situação o camisa dez do tricolor tinha que ter enchido o pé. Rivaldo tentou o sublime. Teve a coragem de optar pelo mais difícil. Quem garante aos devotos do chutão que a bola não teria resvalado em alguém e ido parar nas arquibancadas?
E pra não dizerem que estou aqui puxando o saco do Rivaldo e pra manter viva a possibilidade de ser visto como um mala, aproveito pra dizer que nem tudo que ele faz me agrada. No jogo contra o Corinthians, por exemplo, que terminou num retumbante zero a zero, Rivaldo teve a última chance do jogo em uma cobrança de falta. Optou por bater direto pro gol e viu a bola se perder por cima do travessão adversário.
Naquela situação, ao contrário, o que me parecia mais inteligente era alçar a bola na área e deixar o bicho pegar, como fez Rogério Ceni no lance que levou o tricolor ao empate com o Botafogo no último domingo. Nem sempre a coragem de optar pelo mais difícil é sinônimo de inteligência. O grande jogador sempre se imagina capaz de tudo, só o equilíbrio o torna diferente. Jogar futebol é difícil como fez questão de lembrar o jogador do Botafogo depois da partida.
Feitas tais considerações, com as quais o nobre leitor pode concordar ou não, vou logo azedando a conversa pra não deixar passar em branco essa Lei Geral da Copa. A votação dela nos dará a medida exata do quanto estamos vendidos. Semanas atrás citei a visita de consultores alemães dizendo que o Brasil tinha que jogar duro com a FIFA. Volto a dizer, acho vergonhoso que tenha que vir alguém de fora nos dizer isso.
Veja tudo que o governo cedeu, o tamanho da cobiça dos cartolas. A entidade máxima do futebol não está brigando porque o nosso governo decidiu barrar o descalabro que é permitir a livre transferência de divisas, as isenções de impostos para a FIFA e seus comparsas. Nada disso. Teria ameaçado levar a Copa de 2014 para outro lugar porque a Lei enviada para o Congresso não retirou a meia entrada, porque o governo - que está bancando praticamente tudo - quer que as TVs que não são detentoras dos direitos do Mundial possam usar três por cento dos jogos e trinta segundos de eventos. Repito, três por cento e trinta segundos.
Melhor seria que a Copa fosse mesmo parar nos EUA, assim poderíamos alimentar a ilusão de ter resgatado uma parte ínfima que fosse da nossa soberania. De outro modo me restará a certeza de ter sido derrotado muito antes da bola ter começado a rolar, e sabe-se lá onde.
- 20h11
- 22Sep
Entrevistas coletivas são, em geral, muito chatas. Nessa realidade infértil que se abateu sobre o futebol em nome da modernidade - em que já não é possível ao jornalista tramar uma pauta e decidir soberanamente que jogador irá ouvir - esse tipo de entrevista virou um mal necessário. O resultado está aí para quem ainda tiver paciência para ver ou ouvir.
A coletiva concedida por Neymar na última segunda foi uma prova cabal dessa teoria. O jovem jogador santista teve os nervos testados. Precisou repetir infinitamente as mesmas coisas, provocado por perguntas feitas de maneiras diferentes mas que giravam em torno de uma só questão. Como dizem os espanhóis, Neymar ficou "aburrido". Não era pra menos.
A culpa de tudo isso não é dos jornalistas, ou só dos jornalistas. A eles só resta, ou restou, aquele momento. Uns perguntam o mesmo porque querem a interpelação gravada na sua própria voz, outros se distraíram no momento em que ela foi respondida pela primera vez, há também os que concluiram que as respostas anteriores não esgotaram o tema, e assim a roda da mesmice passa a girar de maneira irritante e descontrolada. Seria demais pedir aos repórteres que não repitam questões sobre um mesmo tema. Embora eu ache que esse dia não tardará.
Agora, imaginem que os treinadores, jogadores ou dirigentes quando vão gravar, normalmente, atendem veículos em separado. Primeiro falam pra TV, depois para as rádios e finalmente para o pessoal da mídia impressa. Pensam o quê? Jogar em times de primeira linha não é só andar de carrão, flertar com mulheres bonitas e fazer um considerável pé de meia. A vida de boleiro tem lá suas penitências, e são muitas, eu sei. Todo ofício tem.
Muitos ali têm sido levados dia após a dia a repercutir essa ladainha da saída do Neymar só por causa das notícias que chegam até nós vindas dos sites e jornais esportivos da Espanha. O Caro leitor já notou que os furos nunca saem de um veículo como o "El País", por exemplo, hoje considerado um dos jornais mais respeitados do mundo? Nada disso.
Elas, as notícias bombásticas, sempre partem dos "ilibados" diários esportivos da Espanha que só faltam estampar as bandeiras do Real e do Barça como se fossem logotipos da empresa. Tenham a santa paciência. Não resta dúvida de que a permanência de Neymar tem sido de grande valia não apenas para o Santos mas também para o futebol brasileiro.
Acredito que a única razão que poderia amparar e provocar um desejo de partida em Neymar seria o fato de querer ser reconhecido como o melhor do mundo. Um desejo pra lá de legítimo. Não podemos ser inocentes. Pra brigar por esse título só mesmo atravessando o Atlântico, pois a FIFA parece não ter olhos para a América.
E pedir que Neymar dê conta disso, mude essa realidade, é pedir para que ele aceite brigar com moinhos de vento. Enquanto isso, ficamos todos nós, que nem sabemos ao certo onde vamos almoçar amanhã, querendo saber de Neymar o que ele fará depois da Libertadores do ano que vem.
A coletiva concedida por Neymar na última segunda foi uma prova cabal dessa teoria. O jovem jogador santista teve os nervos testados. Precisou repetir infinitamente as mesmas coisas, provocado por perguntas feitas de maneiras diferentes mas que giravam em torno de uma só questão. Como dizem os espanhóis, Neymar ficou "aburrido". Não era pra menos.
A culpa de tudo isso não é dos jornalistas, ou só dos jornalistas. A eles só resta, ou restou, aquele momento. Uns perguntam o mesmo porque querem a interpelação gravada na sua própria voz, outros se distraíram no momento em que ela foi respondida pela primera vez, há também os que concluiram que as respostas anteriores não esgotaram o tema, e assim a roda da mesmice passa a girar de maneira irritante e descontrolada. Seria demais pedir aos repórteres que não repitam questões sobre um mesmo tema. Embora eu ache que esse dia não tardará.
Agora, imaginem que os treinadores, jogadores ou dirigentes quando vão gravar, normalmente, atendem veículos em separado. Primeiro falam pra TV, depois para as rádios e finalmente para o pessoal da mídia impressa. Pensam o quê? Jogar em times de primeira linha não é só andar de carrão, flertar com mulheres bonitas e fazer um considerável pé de meia. A vida de boleiro tem lá suas penitências, e são muitas, eu sei. Todo ofício tem.
Muitos ali têm sido levados dia após a dia a repercutir essa ladainha da saída do Neymar só por causa das notícias que chegam até nós vindas dos sites e jornais esportivos da Espanha. O Caro leitor já notou que os furos nunca saem de um veículo como o "El País", por exemplo, hoje considerado um dos jornais mais respeitados do mundo? Nada disso.
Elas, as notícias bombásticas, sempre partem dos "ilibados" diários esportivos da Espanha que só faltam estampar as bandeiras do Real e do Barça como se fossem logotipos da empresa. Tenham a santa paciência. Não resta dúvida de que a permanência de Neymar tem sido de grande valia não apenas para o Santos mas também para o futebol brasileiro.
Acredito que a única razão que poderia amparar e provocar um desejo de partida em Neymar seria o fato de querer ser reconhecido como o melhor do mundo. Um desejo pra lá de legítimo. Não podemos ser inocentes. Pra brigar por esse título só mesmo atravessando o Atlântico, pois a FIFA parece não ter olhos para a América.
E pedir que Neymar dê conta disso, mude essa realidade, é pedir para que ele aceite brigar com moinhos de vento. Enquanto isso, ficamos todos nós, que nem sabemos ao certo onde vamos almoçar amanhã, querendo saber de Neymar o que ele fará depois da Libertadores do ano que vem.
- 19h19
- 15Sep
Que os dirigentes não queiram colocar fogo no circo dá pra entender. Eles são partes atuantes dessa imensa festa chamada futebol brasileiro. Uma boa prova disso é que o Ministério do Esporte abriu o cofre para o Sindafebol, o Sindicato Nacional das Associações de Futebol, que pelo que o Google me diz aqui nem mesmo um site tem.
Os mais de seis milhões de reais foram repassados com a intenção de que o Sindafebol coloque em andamento um projeto visando a Copa de 2014, cujo objetivo é cadastrar torcidas organizadas, mesmo sem ter a mínima experiência pra isso. Oito meses se passaram desde a assinatura do contrato e até agora tudo continua no papel.
Mustafá Contursi, figuras das mais conhecidas no mundo da cartolagem e presidente do Sindicato se apressou em dizer que não era bem assim, não estava apenas recebendo dinheiro, e que havia uma contrapartida. É verdade, ela existe, e é de dois por cento do valor do convênio. Ou seja, para receber os mais de seis milhões o Sindafebol terá que gastar cento e vinte seis mil reais. Mas não era exatamente sobre os cartolas que eu queira versar. Acabei levado pela indignação.
Queria falar da atitude dos nossos atletas. Na minha vida de repórter o que mais escutei foram histórias de jogadores que depois de trabalhar ficaram sem ver a cor do dinheiro. E nesse time de maus pagadores jogam todos, grandes e pequenos. Pois acabamos de ver os jogadores da Espanha colocarem em curso a quarta greve da história do futebol naquele país. Uma das grandes bandeiras era fazer com que o fundo criado para salvar os atletas, vítimas de calote, tivesse recursos suficientes para cumprir sua função.
E pensar que nós aqui, no terror do nosso subdesenvolvimento, na eterna condição de país do futuro, do futebol e tal, nem fundo temos. Não seria uma boa hora pra pensar nisso? Os movimentos do mundo estão aí pra nos ensinar, ao menos. Mas vocês são capazes de imaginar algumas das estrelas da nossa seleção dando a cara a tapa como fez o Puyol e tantos outros lá na Espanha?
Vale lembrar que no mundo da bola os bem pagos são minoria, as cifras estampadas nos jornais criam um mundo de fantasia. O fato é que os caras bateram o pé e fizeram os manda-chuvas garantirem o pagamento de cinquenta milhões de euros que os clubes ainda deviam a mais de duzentos jogadores que ficaram com salários atrasados da última temporada.
Eles também conseguiram ampliar o valor do fundo para cobrir salários de jogadores de clubes em dificuldades financeiras e incluir no acordo uma cláusula que põe fim aos contratos se os clubes ficarem em dívida com o atleta por mais de três meses.
Na Itália a bola só irá rolou na última sexta depois de encerrada uma greve, que se não foi tão contundente e eficaz como a da Espanha, mostrou que os jogadores são capazes de se mobilizar para lutar por seus interesses. Eles se negaram a pagar sozinhos um tal "imposto de solidariedade" criado pelo premiê Silvio Berlusconi, que é também o presidente de honra do Milan.
Outra preocupação dos italianos foi exigir garantias de que os clubes irão preservar atletas em fim de contrato, ou que não façam parte dos planos dos times, e de que eles não serão transferidos contra sua vontade, além de ter assegurado o direito de continuar treinando com o restante do grupo.
Não é só o nosso jeito de jogar que anda frágil, é nossa maneira de lidar com o futebol também. Pelo visto estamos ficando para trás. O que somos capazes de copiar dos europeus em matéria de bola? Planos de marketing extravagantes, o jeito pesado de jogar?
Fossemos nós um povo que cuida bem dos seus direitos não seria exagerado dizer que os nossos jogadores de futebol teriam vergonha de encarar a torcida de cabeça erguida, olho no olho. Fossemos nós esse outro tipo de povo. Mas de alguma forma somos todos pelegos, no amor, na vida, e isso por si só é capaz de explicar o futebol que temos. E, olha, não foi por falta de alguém para apontar o caminho, não é mesmo meu nobre Doutor Sócrates? E viva a nossa independência fantasiosa, a nossa democracia.
*Artigo publicado no dia 07 de setembro (Dia da Independência) no Jornal "A Tribuna", Santos
Os mais de seis milhões de reais foram repassados com a intenção de que o Sindafebol coloque em andamento um projeto visando a Copa de 2014, cujo objetivo é cadastrar torcidas organizadas, mesmo sem ter a mínima experiência pra isso. Oito meses se passaram desde a assinatura do contrato e até agora tudo continua no papel.
Mustafá Contursi, figuras das mais conhecidas no mundo da cartolagem e presidente do Sindicato se apressou em dizer que não era bem assim, não estava apenas recebendo dinheiro, e que havia uma contrapartida. É verdade, ela existe, e é de dois por cento do valor do convênio. Ou seja, para receber os mais de seis milhões o Sindafebol terá que gastar cento e vinte seis mil reais. Mas não era exatamente sobre os cartolas que eu queira versar. Acabei levado pela indignação.
Queria falar da atitude dos nossos atletas. Na minha vida de repórter o que mais escutei foram histórias de jogadores que depois de trabalhar ficaram sem ver a cor do dinheiro. E nesse time de maus pagadores jogam todos, grandes e pequenos. Pois acabamos de ver os jogadores da Espanha colocarem em curso a quarta greve da história do futebol naquele país. Uma das grandes bandeiras era fazer com que o fundo criado para salvar os atletas, vítimas de calote, tivesse recursos suficientes para cumprir sua função.
E pensar que nós aqui, no terror do nosso subdesenvolvimento, na eterna condição de país do futuro, do futebol e tal, nem fundo temos. Não seria uma boa hora pra pensar nisso? Os movimentos do mundo estão aí pra nos ensinar, ao menos. Mas vocês são capazes de imaginar algumas das estrelas da nossa seleção dando a cara a tapa como fez o Puyol e tantos outros lá na Espanha?
Vale lembrar que no mundo da bola os bem pagos são minoria, as cifras estampadas nos jornais criam um mundo de fantasia. O fato é que os caras bateram o pé e fizeram os manda-chuvas garantirem o pagamento de cinquenta milhões de euros que os clubes ainda deviam a mais de duzentos jogadores que ficaram com salários atrasados da última temporada.
Eles também conseguiram ampliar o valor do fundo para cobrir salários de jogadores de clubes em dificuldades financeiras e incluir no acordo uma cláusula que põe fim aos contratos se os clubes ficarem em dívida com o atleta por mais de três meses.
Na Itália a bola só irá rolou na última sexta depois de encerrada uma greve, que se não foi tão contundente e eficaz como a da Espanha, mostrou que os jogadores são capazes de se mobilizar para lutar por seus interesses. Eles se negaram a pagar sozinhos um tal "imposto de solidariedade" criado pelo premiê Silvio Berlusconi, que é também o presidente de honra do Milan.
Outra preocupação dos italianos foi exigir garantias de que os clubes irão preservar atletas em fim de contrato, ou que não façam parte dos planos dos times, e de que eles não serão transferidos contra sua vontade, além de ter assegurado o direito de continuar treinando com o restante do grupo.
Não é só o nosso jeito de jogar que anda frágil, é nossa maneira de lidar com o futebol também. Pelo visto estamos ficando para trás. O que somos capazes de copiar dos europeus em matéria de bola? Planos de marketing extravagantes, o jeito pesado de jogar?
Fossemos nós um povo que cuida bem dos seus direitos não seria exagerado dizer que os nossos jogadores de futebol teriam vergonha de encarar a torcida de cabeça erguida, olho no olho. Fossemos nós esse outro tipo de povo. Mas de alguma forma somos todos pelegos, no amor, na vida, e isso por si só é capaz de explicar o futebol que temos. E, olha, não foi por falta de alguém para apontar o caminho, não é mesmo meu nobre Doutor Sócrates? E viva a nossa independência fantasiosa, a nossa democracia.
*Artigo publicado no dia 07 de setembro (Dia da Independência) no Jornal "A Tribuna", Santos
- 15h23
- 07Jul
Se um dia vocês passarem por lá não se deixem levar pela aparência. O Bar do Zé Ladrão é família. Normalmente, aos domingos, por volta das cinco e meia da tarde já está com as portas de ferro arriadas. Mas no último domingo, com o Mano Menezes fazendo sua estréia em competições oficiais no comando da seleção o Zé entrou no clima que ronda as licitações para a Copa de 2014 e flexibilizou o horário de fechamento. Dizem que a tática não redundou em aumento do faturamento uma vez que o futebol apresentado pela seleção brasileira abateu o ânimo dos presentes, inclusive o daqueles que antes da bola rolar demonstravam uma insensata euforia.
Dizem mais, muitos foram embora antes do apito final e os que restaram não tardaram a deixar o local. O que o Zé achou bom. Mas o fato que eu vos relato se deu mais de setenta e duas horas depois, o que deixa claro que se o futebol da nossa seleção não serviu para o divertimento, foi pra lá de eficaz para provocar e manter as discussões vivas. E o papo corria numa boa quando Curió se encarregou do primeiro rompante:
_ Eu não aguento é essa ladainha da imprensa. Pô, já ouvi e li de tudo. Que foi um fracasso. Que a gente não deve esperar que a seleção dê show. Esses caras tão forçando a barra. Zero a zero é fracasso? Fracasso seria perder, levar de três ou quatro. Aí vá lá!
Nisso o sujeito que trabalha no açougue - cujo nome infelizmente não me recordo - decidiu entrar na conversa:
_ Olha, meu chapa. Sei não.
Curió entrou de sola, não deu chance pro cara prosseguir:
_ Não entra numas de defender, não. Vamos ser honestos. Se a gente não pode esperar show do Brasil pode esperar show de quem? Só da Espanha? Se é assim, vamos parar com esse papo de futebol arte. Vamos mandar colocar um anúncio no jornal avisando que o futebol arte morreu.
O cara do açougue tentou de novo:
_ O futebol bonito tá lá, só não virou.
_ Não virou? Vou te dizer uma coisa. O bonito reside no simples. Pelé era simples na maior parte do tempo. Agora esses caras usam três brincos em cada orelha. Nada contra, de verdade. Mas os caras são enfeitados, entende? Quem joga futebol é o homem, sacou? Não esquece disso.
Foi aí que o Curió percebeu que eu tava ligado no papo. Não deu outra, virou a sua metralhadora verbal pra mim.
_ E aí, tu é jornalista esportivo, não vai falar nada?
Pensei comigo: Como jornalista vira alvo fácil. Mas mesmo esse meu breve silêncio irritou o cara:
_Vai dizer que não é? Esse seria teu time?
_ Curió, só vou te dizer uma coisa: Jamais negaria a batuta ao Ganso se tivesse uma orquestra.
_ Jornalista metido a erudito é f...
Abençoado seja o rapaz do açougue que decidiu voltar pro campo de batalha e me salvou:
_ O Curió não tá errado, não. Os caras exageram. Pra mim o Robinho venceu faz tempo.
Mas é geral. Vocês não viram a Argentina, o Uruguai?
_ Ô meu chapa, não foge do assunto. Nós estamos falando do Brasil. Se liga.
Vi que não tinha jeito, quase implorei:
_ O Zé vê quanto é o meu café aqui, que eu vô embora!
Dizem mais, muitos foram embora antes do apito final e os que restaram não tardaram a deixar o local. O que o Zé achou bom. Mas o fato que eu vos relato se deu mais de setenta e duas horas depois, o que deixa claro que se o futebol da nossa seleção não serviu para o divertimento, foi pra lá de eficaz para provocar e manter as discussões vivas. E o papo corria numa boa quando Curió se encarregou do primeiro rompante:
_ Eu não aguento é essa ladainha da imprensa. Pô, já ouvi e li de tudo. Que foi um fracasso. Que a gente não deve esperar que a seleção dê show. Esses caras tão forçando a barra. Zero a zero é fracasso? Fracasso seria perder, levar de três ou quatro. Aí vá lá!
Nisso o sujeito que trabalha no açougue - cujo nome infelizmente não me recordo - decidiu entrar na conversa:
_ Olha, meu chapa. Sei não.
Curió entrou de sola, não deu chance pro cara prosseguir:
_ Não entra numas de defender, não. Vamos ser honestos. Se a gente não pode esperar show do Brasil pode esperar show de quem? Só da Espanha? Se é assim, vamos parar com esse papo de futebol arte. Vamos mandar colocar um anúncio no jornal avisando que o futebol arte morreu.
O cara do açougue tentou de novo:
_ O futebol bonito tá lá, só não virou.
_ Não virou? Vou te dizer uma coisa. O bonito reside no simples. Pelé era simples na maior parte do tempo. Agora esses caras usam três brincos em cada orelha. Nada contra, de verdade. Mas os caras são enfeitados, entende? Quem joga futebol é o homem, sacou? Não esquece disso.
Foi aí que o Curió percebeu que eu tava ligado no papo. Não deu outra, virou a sua metralhadora verbal pra mim.
_ E aí, tu é jornalista esportivo, não vai falar nada?
Pensei comigo: Como jornalista vira alvo fácil. Mas mesmo esse meu breve silêncio irritou o cara:
_Vai dizer que não é? Esse seria teu time?
_ Curió, só vou te dizer uma coisa: Jamais negaria a batuta ao Ganso se tivesse uma orquestra.
_ Jornalista metido a erudito é f...
Abençoado seja o rapaz do açougue que decidiu voltar pro campo de batalha e me salvou:
_ O Curió não tá errado, não. Os caras exageram. Pra mim o Robinho venceu faz tempo.
Mas é geral. Vocês não viram a Argentina, o Uruguai?
_ Ô meu chapa, não foge do assunto. Nós estamos falando do Brasil. Se liga.
Vi que não tinha jeito, quase implorei:
_ O Zé vê quanto é o meu café aqui, que eu vô embora!
- 01h15
- 23Jun
O juiz mira o céu e apita.
Com dez minutos de jogo Ganso já tinha esbanjado categoria.
O Santos vacila. O Peñarol chega.
Depois de ver lançamento pra Zé Love dar em nada,
Ganso fecha a cara, pede toque de bola.
O tal juiz deixa no ar a velha impressão de quem esqueceu os cartões em casa.
Novo passe primoroso de Ganso. Neymar é agarrado. Pouco depois, num lance de Pelé,
o menino usa a sola pra tirar de campo seu mais implacável marcador.
Zé Love manda a bola pra lateral e estufa o peito.
Léo perde a melhor chance do primeiro tempo.
O placar em zero a zero sugere tensão, mas na volta pro gramado,
em menos de dois minutos: um toque de letra de Ganso,
um avanço perfeito de Arouca e uma finalização fatal de Neymar. Um a zero.
O Santos começava a triunfar. Arouca renascia.
Diante do futebol consistente de Adriano e Danilo, o segundo gol,
de Danilo, pareceu fazer justiça. Injusto foi o Deus do futebol fazer
Durval participar do gol do Peñarol. Dois a um.
Amar Zé Love continuou sendo difícil até o último minuto.
Como foi difícil ver Ganso deixar o gramado.
Estava decretada a festa santista... quando Pelé entrou em campo
pra dizer que torcer era um ato sofrido.
- 11h57
- 10Jun
Ele fez como sempre. Entrou e sentou na última banqueta que ficava bem no final do balcão. Os mais íntimos estavam cansados de saber que o lugar pra ele tinha um ar de tribuna. Toda vida disse para quem quisesse ouvir que dali podia ficar de olho em tudo que se passava no recinto, mas os amigos estavam cansados de saber que, no fundo, a razão era outra, tudo não passava de superstição.
Não era novidade pra ninguém que ele alimentava a crença de que uma vez sentado ali o Santos não perdia. Quando dava o azar de pintar na área e encontrar o lugar ocupado não pensava duas vezes. Arrumava outra banqueta e dava um jeito de colar no intrometido, que não demorava para perceber a intimidade dele com o local e, mesmo contrariado, acabava dando o fora.
Pra diminuir a possibilidade desse infortúnio, mesmo em dias sem jogo ele fazia questão de marcar posição ali, na esperança de que o ritual o ajudasse a manter qualquer um bem longe dele. Mas, ontem, quando o Silvio chegou ao bar do Zé Ladrão percebeu no ar a inquietação do amigo que, claro, ocupava a sagrada última banqueta do balcão.
_ Que cara é essa meu velho? Tá pensando no quê?
_ Pensando no quê, tô pensando no jogo do peixe.
Silvio, que é palmeirense, não perdeu a chance de tirar uma casquinha.
_ Não vê a hora, né? Acalma esse coração que o primeiro jogo é só na semana que vem. Pra que sofrer agora?
Maneco respondeu, primeiro, com um olhar meio de lado, sugerindo certo desprezo. Mas a resistência dele durou pouco.
_ Não não tô nem aí com o jogo. Ponho a maior fé que meu time tem futebol de sobra pra ganhar desse Peñarol. Mas essa possibilidade do Morumbi quase me pôs louco. Ainda bem que se ligaram.
_ Ué!? Cê acabou de dizer que o Santos tem futebol de sobra. Qualé?
_ Vê se entende. Até você que é palmeirense vai sacar. Tá tudo dando certo no Pacaembu. Não podemos jogar na Vila. Beleza! Agora, só de pensar em ter que jogar no Morumbi eu já passava mal. Só de pensar naquela arquibancada me dá desgosto. Não sou novo, mas em 62,63, eu tinha sete anos, sei lá onde estava com a cabeça, não lembro de nada. E olha que espremendo os miolos sou capaz até de me ver com meus irmãos brincando na frente da nossa casa no Marapé, e olha que naquela época eu tinha bem menos que isso. Fazer o quê, né? Se a gente pudesse escolher as memórias não seria ruim. Em 2003, então, acreditei piamente que veria o meu time campeão da Libertadores e tomamos aquelas duas traulitadas do Boca. Logo do Boca.
Sarrista de fama reconhecida, Silvio não deixou a oportunidade passar. Entre o amigo e a piada, ficou com a piada:
_Não sei porque é que tu sofre. A tua banquetinha, que fica quase na entrada do banheiro, não é mágica? Burro foi você ter deixado ela aí em 2003. Se tivesse aguentado mais um pouco esse arzinho com uma leve fragrância de xixi, a história seria outra.
Contrariado, Maneco tentou por um fim na conversa.
_ Engraçadinho, vai se divertir com o esquadrão do Felipão, vai! Aquilo que é time, né?
_Ué! Eu não te entendo, não é o futebol que vale? Vocês não tem um timão?
_ Um dia você entender de tudo que é feito o futebol. Um dia. Os torcedores do São Paulo não conseguem nem disfarçar a uruca em cima do Santos.Tremem só de pensar que outro time, e não o deles, será campeão da Libertadores. É coisa descarada. Aquilo lá seria uma arapuca, arapuca das boas. Ufa!
- Então, ter um time bom não resolve nada?
_ O que resolve é a fé, a fé! Um dia você vai entender. E ó, dessa vez não arredo pé daqui,não.
Maneco pagou a conta, se despediu dos outros. Mas antes tirou a banqueta do lugar... que só podia ser dele.
Não era novidade pra ninguém que ele alimentava a crença de que uma vez sentado ali o Santos não perdia. Quando dava o azar de pintar na área e encontrar o lugar ocupado não pensava duas vezes. Arrumava outra banqueta e dava um jeito de colar no intrometido, que não demorava para perceber a intimidade dele com o local e, mesmo contrariado, acabava dando o fora.
Pra diminuir a possibilidade desse infortúnio, mesmo em dias sem jogo ele fazia questão de marcar posição ali, na esperança de que o ritual o ajudasse a manter qualquer um bem longe dele. Mas, ontem, quando o Silvio chegou ao bar do Zé Ladrão percebeu no ar a inquietação do amigo que, claro, ocupava a sagrada última banqueta do balcão.
_ Que cara é essa meu velho? Tá pensando no quê?
_ Pensando no quê, tô pensando no jogo do peixe.
Silvio, que é palmeirense, não perdeu a chance de tirar uma casquinha.
_ Não vê a hora, né? Acalma esse coração que o primeiro jogo é só na semana que vem. Pra que sofrer agora?
Maneco respondeu, primeiro, com um olhar meio de lado, sugerindo certo desprezo. Mas a resistência dele durou pouco.
_ Não não tô nem aí com o jogo. Ponho a maior fé que meu time tem futebol de sobra pra ganhar desse Peñarol. Mas essa possibilidade do Morumbi quase me pôs louco. Ainda bem que se ligaram.
_ Ué!? Cê acabou de dizer que o Santos tem futebol de sobra. Qualé?
_ Vê se entende. Até você que é palmeirense vai sacar. Tá tudo dando certo no Pacaembu. Não podemos jogar na Vila. Beleza! Agora, só de pensar em ter que jogar no Morumbi eu já passava mal. Só de pensar naquela arquibancada me dá desgosto. Não sou novo, mas em 62,63, eu tinha sete anos, sei lá onde estava com a cabeça, não lembro de nada. E olha que espremendo os miolos sou capaz até de me ver com meus irmãos brincando na frente da nossa casa no Marapé, e olha que naquela época eu tinha bem menos que isso. Fazer o quê, né? Se a gente pudesse escolher as memórias não seria ruim. Em 2003, então, acreditei piamente que veria o meu time campeão da Libertadores e tomamos aquelas duas traulitadas do Boca. Logo do Boca.
Sarrista de fama reconhecida, Silvio não deixou a oportunidade passar. Entre o amigo e a piada, ficou com a piada:
_Não sei porque é que tu sofre. A tua banquetinha, que fica quase na entrada do banheiro, não é mágica? Burro foi você ter deixado ela aí em 2003. Se tivesse aguentado mais um pouco esse arzinho com uma leve fragrância de xixi, a história seria outra.
Contrariado, Maneco tentou por um fim na conversa.
_ Engraçadinho, vai se divertir com o esquadrão do Felipão, vai! Aquilo que é time, né?
_Ué! Eu não te entendo, não é o futebol que vale? Vocês não tem um timão?
_ Um dia você entender de tudo que é feito o futebol. Um dia. Os torcedores do São Paulo não conseguem nem disfarçar a uruca em cima do Santos.Tremem só de pensar que outro time, e não o deles, será campeão da Libertadores. É coisa descarada. Aquilo lá seria uma arapuca, arapuca das boas. Ufa!
- Então, ter um time bom não resolve nada?
_ O que resolve é a fé, a fé! Um dia você vai entender. E ó, dessa vez não arredo pé daqui,não.
Maneco pagou a conta, se despediu dos outros. Mas antes tirou a banqueta do lugar... que só podia ser dele.
Começou a carreira no início da década de 90 como repórter da TV Tribuna, em Santos. É autor de livros e documentários. Trabalhou como repórter e apresentador do programa "Grandes Momentos do Esporte, da TV Cultura, onde atualmente é editor-chefe e apresentador do programa "Cartão Verde". Desde maio de 2009 é comentaristas da ESPN Brasil
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