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O skate a partir de um olhar científico
por Sidney Arakaki
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Giancarlo Machado visitando acervo de Eduardo Yndio
Foto: Fellipe Francisco
Qual curso você está fazendo?
Faço mestrado em Antropologia Social na USP.
Pra que serve isso?
A Antropologia é uma área das Ciências Sociais em que você pode pesquisar vários tipos de comportamentos, de organizações sociais, entre outras coisas, envolvendo aspectos culturais, sociais, políticos, etc. De um modo geral, podemos estudar desde uma comunidade indígena da Amazônia até os skatistas de São Paulo, que é o meu caso. A minha área de pesquisa é a Antropologia da Cidade, então, eu tento pensar a cidade a partir da prática e dos discursos dos skatistas. E também, como eles interagem com o meio urbano, com certos equipamentos.
Mas foi especificamente o skate que te motivou?
Não necessariamente, porque eu sempre me interessei muito pela cidade. Pensar a cidade, pensar as relações na cidade. E como eu já tinha essa relação com o skate, aí eu pensei: porque não estudar o skate? Na antropologia há uma coisa bastante interessante que é você estudar os próprios fatos do contexto onde vive. Então eu pensei que poderia fazer uma análise antropológica da prática do skate. Cheguei a São Paulo, mas não conhecia praticamente ninguém. Daí coincidiu com minha aprovação no mestrado. Sendo assim, conheci a cidade através do skate. Faço trabalho de campo, converso com o pessoal, vou para as sessões com os skatistas, e ao mesmo tempo, conheço a cidade. Eu acompanhei o Circuito Sampa Skate e fui pra lugares que nunca imaginaria. Ir lá para a Represa do Guarapiranga, ir lá para a Zona Norte, Zona Leste... Tudo por conta da minha pesquisa relacionada ao skate.
A partir desse estudo eu vou fazer minha dissertação de mestrado. Para virar mestre. E no futuro eu pretendo publicar alguns artigos em revista, ou quem sabe – se o trabalho ficar bom - publicar um livro. Porque nessa perspectiva da Antropologia não há mais ninguém que pesquise skate. Então eu creio que posso contribuir não só pra disciplina, mas também para outras áreas da ciência.
Esse seu estudo é sobre o skate. O que você descobriu de legal que vale a pena levar para a sociedade sobre os skatistas? De alguma forma levar pra sociedade entender o skate. Para o conhecimento não ficar “preso” entre a gente.
Bem sinteticamente, o que eu aprendi com a minha pesquisa é que o skate não pode ser enquadrado a partir de um único ponto de vista. Cada pessoa, cada skatista atribui um significado diferente a ele. Não tem como você falar que o skate é simplesmente um esporte, que o skatista é somente um atleta. Skate é esporte para uns, diversão para outros, são muitos significados e práticas envolvidas. Há várias lógicas em sua prática. É também um tipo de atividade que reúne pessoas de várias classes sociais. Por exemplo, você vai a uma pista e pode encontrar um cara com condição financeira elevada interagindo com um garoto da periferia em virtude do skate. É algo que permite conhecer a cidade, conhecer outras pessoas.
Conta um pouco do seu blog.
Eu sou do interior de Minas Gerais, da cidade de Ipatinga. Só que eu comecei a fazer meu curso de graduação na cidade de Montes Claros. Ainda na minha gradução eu comecei a pesquisar sobre o skate. Eu tenho muitas revistas, sempre colecionei revistas de skate. Ao mesmo tempo em que pesquisava, eu também adquiria as revistas. Aí eu pensei: tenho tantas revistas aqui, porque não compartilhar alguns fatos com o pessoal na internet? Eu tenho certeza que do mesmo jeito que eu gosto de revistas antigas, outras pessoas também gostam. O blog é uma forma que eu encontro para relaxar entre uma atividade e outra. Eu tiro um tempinho e faço uma postagem. Com o tempo o blog tomou uma direção voltada ao skate old school. Deste modo passei a resgatar materiais das revistas Overall, da Skatin’, Brasil Skate, entre outras. E hoje a cara do blog é isso. O Skatecultura é voltado para o skate old school, para os skatistas mais velhos. A idéia é essa: resgatar matérias antigas, fazer matérias diferentes, que você não encontra em revistas de skate.
Esse ano tivemos o lançamento do Vida Sobre Rodas e o Dirty Money. Juntando os dois, temos praticamente a história do skate brasileiro. Como você vê isso?
Eu vejo o seguinte: cada filme, tanto o Vida Sobre Rodas quanto o Dirty Money, é uma parte da história. Acho que não dá pra contar uma história inteira porque o skate é muito mais amplo e complexo. Mas são grupos de amigos que tentam contar a história aos seus respectivos modos. Enquanto no Vida Sobre Rodas o foco é mais o vertical, o Dirty Money retrata o surgimento do street na cidade de São Paulo. Eu acho bem positivo esse tipo de documentário, porque é uma forma de você abordar a história de uma forma diferente, mas, ao mesmo tempo, dar visibilidade a certos skatistas que contribuíram para o skate ser o que é hoje. Provavelmente terá o documentário da equipe Bones Brigade, vai ser da hora, né? Já teve o dos Z Boys (da década de 70), agora o da Bones Brigade (década de 80). Agora imagina ter o documentário da equipe Plan B, dos anos 90? Acho que não tem como contar “A” história geral, mas uma parte.
Como antropólogo, você junta o Dirty Money, o Vida Sobre Rodas e consegue traçar um perfil do skatista brasileiro?
Tem continuidade, né? O Vida Sobre Rodas retrata principalmente o final da década de 80. Foi a época em que o skate era praticado em transição. O vertical tinha grande força. O street ainda estava começando a aparecer. Então o mérito do Vida Sobre Rodas é abordar esse momento, onde surgiram os protagonistas: Bob, Cris, Ueda, Sandro. E ao mesmo tempo se você der continuidade, o Dirty Money retrata um período um pouco mais a frente. Você começa a ver a questão da crise no mercado do skate, fechamento das pistas, e aí entende o porquê dos caras começarem a andar na rua. Tem continuidade. Vendo o Vida Sobre Rodas e depois o Dirty Money você conhece boa parte da história do skate. Acho isso muito interessante.
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