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- 03Feb
Diário da CAN: Grandes descobrem que só tradição não resolve
por Leonardo Bertozzi, blogueiro do ESPN.com.br
Não foram poucos os torcedores mais desavisados que, no início da Copa Africana de Nações, perguntaram onde estavam seleções tradicionais do continente, como Camarões, Nigéria, África do Sul, Argélia e o atual tricampeão Egito.
As eliminatórias foram repletas de surpresas, com as chegadas de estreantes como Níger e Botsuana, e quando a bola rolou elas continuaram. Seleções como Marrocos e Senegal, com jogadores em cenários importantes do futebol europeu, também ficaram pelo caminho, enquanto azarões do torneio, tais como Sudão e Guiné Equatorial, rumavam às quartas-de-final.
Os jogos da fase de grupos foram marcados por muito equilíbrio. A goleada de Guiné sobre Botsuana, por 6 a 1, foi exceção em um mar de placares apertados. Das 24 partidas disputadas, apenas cinco foram decididas por mais de um gol de diferença.
Gana e Costa do Marfim, as duas principais favoritas, passaram à próxima fase com um futebol pragmático, privilegiando o resultado e mostrando o quanto é grande a pressão pelo título. Afinal, Gana vive um jejum de 30 anos na CAN, enquanto os marfinenses não comemoram há duas décadas. Futebol bonito, mesmo, coube ao Gabão de Aubameyang.
A evolução das seleções médias e pequenas na África é um contraste com o que se vê, por exemplo, na Europa, onde as eliminatórias raramente têm resultados inesperados e as grandes seleções costumam chegar à fase final do torneio continental sem maiores dificuldades.
É claro que alguns centros tradicionais pagam caro pela falta de organização e pela dificuldade em renovar seus elencos. A Nigéria, depois de fracassar na Copa do Mundo de 2010, viu o presidente do país impor a saída da seleção dos torneios por dois anos - algo que só foi revertido diante de uma ameaça de suspensão por parte da Fifa.
Em Camarões, recentemente os jogadores se recusaram a enfrentar a Argélia em um protesto pelo não pagamento de prêmios prometidos pela federação. Samuel Eto'o, visto como o líder do movimento, foi suspenso por 15 partidas da seleção, mas depois teve a pena reduzida para oito meses.
No Egito, a tragédia desta semana foi a prova definitiva de como o futebol foi afetado pelos desdobramentos da Primavera Árabe e da derrubada do governo Mubarak. Levará tempo até o país construir uma seleção tão forte quanto aquela que dominou a CAN na última década.
Não são poucos o que questionam o compromisso dos jogadores de clubes importantes da Europa com suas seleções. Jogadores como Michael Essien e Kevin-Prince Boateng, de Gana, pediram dispensa para se concentrarem nos times. Aqueles que aceitam muitas vezes não hesitam em reclamar das condições ruins oferecidas na África - comportamento questionado por François Zahoui, técnico da Costa do Marfim.
Enquanto isso, a seleção de Zâmbia, com apenas um jogador em time de primeira divisão na Europa, e o Sudão, formado inteiramente por jogadores que atuam no país, disputarão neste sábado uma vaga na semifinal.
Guiné Equatorial montou seu time com vários atletas de ligas inferiores da Espanha - até da quarta divisão - e conseguiu superar a fase de grupos em sua primeira participação, vencendo o Senegal de Moussa Sow, Papiss Cissé e Demba Ba, alguns dos principais artilheiros de campeonatos nacionais da Europa no último ano.
Em parte, esta evolução atesta uma vitória da CAF na criação de um torneio de seleções em que só podem atuar jogadores atuando nos respectivos países - o CHAN (Campeonato Africano de Nações). Disputado nos anos em que a CAN não é realizado, o CHAN teve a Tunísia como última campeã, em 2011. O país também tem o atual campeão africano de clubes, o Espérance.
A opção de alguns países por técnicos estrangeiros com pouco conhecimento da realidade local também começa a ser revista. A escolha da Costa do Marfim por Zahoui, após tentativas frustradas com Eriksson, Halilhodzic, entre outros, é um bom exemplo. De qualquer maneira, não é regra. Com o brasileiro Gílson Paulo, contratado dias antes da competição, Guiné Equatorial surpreendeu.
Não há uma fórmula certa para ter sucesso no futebol africano, mas uma coisa esta edição da CAN deixou muito clara: ninguém vai ganhar só pelo nome. Que Gana e Costa do Marfim abram o olho.
As eliminatórias foram repletas de surpresas, com as chegadas de estreantes como Níger e Botsuana, e quando a bola rolou elas continuaram. Seleções como Marrocos e Senegal, com jogadores em cenários importantes do futebol europeu, também ficaram pelo caminho, enquanto azarões do torneio, tais como Sudão e Guiné Equatorial, rumavam às quartas-de-final.
Os jogos da fase de grupos foram marcados por muito equilíbrio. A goleada de Guiné sobre Botsuana, por 6 a 1, foi exceção em um mar de placares apertados. Das 24 partidas disputadas, apenas cinco foram decididas por mais de um gol de diferença.
Gana e Costa do Marfim, as duas principais favoritas, passaram à próxima fase com um futebol pragmático, privilegiando o resultado e mostrando o quanto é grande a pressão pelo título. Afinal, Gana vive um jejum de 30 anos na CAN, enquanto os marfinenses não comemoram há duas décadas. Futebol bonito, mesmo, coube ao Gabão de Aubameyang.
A evolução das seleções médias e pequenas na África é um contraste com o que se vê, por exemplo, na Europa, onde as eliminatórias raramente têm resultados inesperados e as grandes seleções costumam chegar à fase final do torneio continental sem maiores dificuldades.
É claro que alguns centros tradicionais pagam caro pela falta de organização e pela dificuldade em renovar seus elencos. A Nigéria, depois de fracassar na Copa do Mundo de 2010, viu o presidente do país impor a saída da seleção dos torneios por dois anos - algo que só foi revertido diante de uma ameaça de suspensão por parte da Fifa.
Em Camarões, recentemente os jogadores se recusaram a enfrentar a Argélia em um protesto pelo não pagamento de prêmios prometidos pela federação. Samuel Eto'o, visto como o líder do movimento, foi suspenso por 15 partidas da seleção, mas depois teve a pena reduzida para oito meses.
No Egito, a tragédia desta semana foi a prova definitiva de como o futebol foi afetado pelos desdobramentos da Primavera Árabe e da derrubada do governo Mubarak. Levará tempo até o país construir uma seleção tão forte quanto aquela que dominou a CAN na última década.
Não são poucos o que questionam o compromisso dos jogadores de clubes importantes da Europa com suas seleções. Jogadores como Michael Essien e Kevin-Prince Boateng, de Gana, pediram dispensa para se concentrarem nos times. Aqueles que aceitam muitas vezes não hesitam em reclamar das condições ruins oferecidas na África - comportamento questionado por François Zahoui, técnico da Costa do Marfim.
Enquanto isso, a seleção de Zâmbia, com apenas um jogador em time de primeira divisão na Europa, e o Sudão, formado inteiramente por jogadores que atuam no país, disputarão neste sábado uma vaga na semifinal.
Guiné Equatorial montou seu time com vários atletas de ligas inferiores da Espanha - até da quarta divisão - e conseguiu superar a fase de grupos em sua primeira participação, vencendo o Senegal de Moussa Sow, Papiss Cissé e Demba Ba, alguns dos principais artilheiros de campeonatos nacionais da Europa no último ano.
Em parte, esta evolução atesta uma vitória da CAF na criação de um torneio de seleções em que só podem atuar jogadores atuando nos respectivos países - o CHAN (Campeonato Africano de Nações). Disputado nos anos em que a CAN não é realizado, o CHAN teve a Tunísia como última campeã, em 2011. O país também tem o atual campeão africano de clubes, o Espérance.
A opção de alguns países por técnicos estrangeiros com pouco conhecimento da realidade local também começa a ser revista. A escolha da Costa do Marfim por Zahoui, após tentativas frustradas com Eriksson, Halilhodzic, entre outros, é um bom exemplo. De qualquer maneira, não é regra. Com o brasileiro Gílson Paulo, contratado dias antes da competição, Guiné Equatorial surpreendeu.
Não há uma fórmula certa para ter sucesso no futebol africano, mas uma coisa esta edição da CAN deixou muito clara: ninguém vai ganhar só pelo nome. Que Gana e Costa do Marfim abram o olho.
por Leonardo Bertozzi
/leonardobertozzi
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Leonardo Bertozzi é comentarista de futebol dos canais ESPN e da rádio Estadão/ESPN. Jornalista formado pelo Centro Universitário de Belo Horizonte - Uni-BH - faz parte da equipe desde 2009.
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