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Caio Salles
- 10h07
- 16May
Crédito da imagem: Aleko Stergiou/ESPN
Um solzinho fraco tentava aquecer o vento gelado que soprava pela manhã na Barra da Tijuca. Entre os oito competidores ainda vivos no último dia do Billabong Rio Pro 2012, Alejo Muniz e Adriano de Souza carregavam a bandeira do Brasil. As ondas, menores do que nos dias anteriores, seguiam proporcionando bons momentos para os surfistas. Mas não para todos.
Alejo não encontrou nada e parou no australiano Mick Fanning. Adriano, pelo contrário, encontrou boas logo no começo, deixou Josh Kherr precisando de uma combinação de notas durante quase toda a bateria, mas não levou a disputa. A torcida já contava com o brasileiro na semifinal, quando o australiano sacou da manga todo o repertório que podia. Saiu da combinação em uma, virou na outra.
Difícil esconder a decepção de não ter nenhum brasileiro entre os semifinalistas. Ano passado a vitória de Adriano levantou não só a praia da Barra da Tijuca, mas também ele ao primeiro lugar no ranking. Este ano, a esperança era de ver as mesmas cenas no pódio e na classificação. Não deu.
Hora de olhar pra frente e pensar nas próximas etapas. Fiji e Teahuppo, ondas pesadas, tubulares e de respeito. Uma vitória brasileira em casa daria alegria à torcida, mas levar o título sobre as afiadas bancadas de coral do Pacífico elevam a moral a níveis acima da média. Portanto, pranchas pra frente e tubos à vista.
Ao melhor estilo chinês de furar fila e pior estilo brasileiro de se achar mais esperto que os outros, gatinhas em vestidos apertados e playboys de cabelos espetados se esgueiravam entre as pessoas usando de suas pulseiras vips e frases do tipo: "Sou amigo do fulano e conhecido do ciclano" para entrar na festa que, para eles, teria uma premiação no meio para atrapalhar.
Profissionais do surf brasileiro, atletas e gente envolvida com o esporte esperavam pacientemente sua vez de entrar, torcendo para não perder o início da cerimônia. Cotoveladas, empurrões e uma revista geral depois, e começa o Prêmio Fluir 2012. Ou pelo menos acho que começa, não consegui escutar.
Rodrigo Koxa foi o primeiro premiado da noite com a maior vaca, sofrida em Teahuppo, no Tahiti. E aí foi a longa sequência de todos os anos: Melhor manobra, revelação, longboarder, foto, capa, big rider, etc. Filipe Toledo, Gabriel Medina, Phil Rajzman, Danilo Couto, Everaldo Pato, Pedro Scooby, entre outros vencedores até chegar o grande momento: o prémio de melhor surfista do ano.
Alejo Muniz, Gabriel Medina e Adriano de Souza eram os finalistas. Mais uma vez, Adriano ganhou o carro zero km por tudo o que fez em 2011. Da liderança do ranking a vitórias épicas no Brasil e Portugal. Faturou o carro, mas não só isso. Levou de volta ao palco do Prêmio Fluir o respeito que a maior premiação do surfe brasileiro tinha perdido ao transformar o seu grande evento numa balada normal, com ingressos vendidos e gente mais preocupada com a bebida de graça do que na graça do surf.
Em poucas palavras emocionou quem estava mais interessado na importância do surf do que do gelo no copo. Doou metade do carro para o Instituto Guarujá, fundado por seu primeiro shaper, da Hard Wave Surfboards, e fez uma bela homenagem a Vitor Bocão, falecido no mês de fevereiro.
Vitor é filho de Ricardo Bocão, apresentador do prêmio e grande responsável por levar o surf para o nível que está hoje, tanto no lado competitivo quanto no lado midiático. Desde o saudoso programa Realce, Bocão é um eterno batalhador pelo reconhecimento do surf na mídia. A reverência de Adriano de Souza e a condolência no momento tão difícil na vida desta lenda do esporte mostrou que o Brasil ainda mantêm o respeito pelo surf por parte de quem mais importa, aqueles que realmente fazem o esporte: os surfistas. Talvez a maioria das pessoas presentes não tenha se emocionado com tal atitude, mas estas estavam se acotovelando em frente ao bar para garantir sua vodka com energético.
Crédito da imagem: divulgação
- 12h36
- 12May
Crédito da imagem: Aleko Stergiou/ESPN
Sem querer pagar pra ver, a organização resolveu recomeçar as disputas neste sábado pela manhã e adiantar ao máximo a competição feminina antes que as condições piorassem de vez. Mas cinco baterias foram suficientes para ver que as ondas estavam pequenas até mesmo para as mais baixinhas das competidoras, como a havaiana Coco Ho, que mandou para a repescagem a gigante nas ondas Stephanie Gilmore. Sally Fitzgibbons e Carissa Moore também cresceram na hora que precisava e se garantiram nas quartas de final.
Mas o surfe feminino durou pouco. Nova parada no campeonato e a Barra da Tijuca em compasso de espera. A dúvida é se vale a pena esperar essa frente fria causar alguma movimentação no mar ou se essa movimentação pode acabar de vez com as chances de competição.
Enquanto existe alguma onda mínima no mar, as meninas vão tentar fazer o máximo. Voltam pra água ainda neste sábado para mais algumas baterias. Terminar o campeonato nessas condições seria, no mínimo, injusto para quem treina o ano todo em busca de bons resultados. Esperar até amanhã e se deparar com um mar "insurfável", pode ser ainda pior.
Crédito da imagem: Aleko Stergiou/ESPN
Pego os equipamentos e, enquanto passo pela alfândega, Josh Kherr passa direto para a terceira fase, mandando Jadson André para a repescagem. Corro contra o tempo e tento antecipar minha passagem de São Paulo para o Rio de Janeiro, mas o máximo que consigo é ver, pela internet, Jordy Smith se antecipar na disputa contra o CJ Hobgood e Patrick Gudauskas.
Me lamento por estar parado no aeroporto de São Paulo e não consigo ver Raoni Monteiro lamentar sua derrota para o australiano Owen Wright, aquele mesmo que tantos lamentos gerou com sua derrota para Adriano de Souza no ano passado na Barra da Tijuca.
Por falar em Adriano, mais uma vez ele parece estar voando. Ao contrário de mim, que espero para voar num avião, ele decola para a liderança do ranking mundial. Desta vez, nem precisou vencer a competição (ainda). Bastou avançar em sua primeira bateria e já está à frente de Kelly Slater, que nem apareceu pelas bandas de cá esse ano. Arrumou a desculpa de um corte no pé para ficar surfando ondas tubulares na Austrália. A mesma Austrália de onde vieram Taj Burrow, Joel Parkinson, Julian Wilson e Mick Fanning, os melhores surfistas desse primeiro dia do Billabong Rio Pro.
Eu já desistia de mudar meu vôo. Teria que me contentar em esperar e assistir tudo pela internet. No Rio, quem não se contentava era Gabriel Medina. O australiano Adrian Buchan foi melhor que ele e mandou o brasileiro esperar na repescagem.
Eu esperava no aeroporto. E, longe da praia, o tempo parece que não passa. A hora do vôo não chega e as ondas não param no Arpoador. Quem passa por lá é Miguel Pupo, que não perde tempo e segue direto para a terceira fase.
Pego meu cartão de embarque no balcão da companhia aérea, mas ainda tenho os pés no chão. Tão no chão quanto os de Alejo Muniz, que viu seus adversários saírem na frente, mas manteve a calma. Não posso mais acompanhar a bateria, hora de decolar em São Paulo.
O cansaço das quase 48 horas de viagem me derrubam e mal vejo o avião pousar no Rio de Janeiro. Saio do aeroporto aliviado por chegar em casa. Tão aliviado quanto Alejo Muniz, que esperou até o último momento e não aliviou na onda da série para se juntar a Adriano de Souza e Miguel Pupo direto na terceira fase.
Crédito da imagem: Aleko Stergiou/ESPN
- 19h06
- 08May
Ainda sinto o cheiro que nos acompanha desde aquela primeira noite em Xangai, quando comemos os tradicionais espetinhos de cogumelos e brotos de bambú feitos na rua. Uns falam que o odor vem do alho poró, outros do nocivo glutamato monossódico, usado largamente na culinária local. Eu, particularmente, acho que é uma mistura de tudo, com massivas pitadas de alho, pimenta e suor.
A China exala esse cheiro por todos os poros. Aqui, dentro do avião com destino a Seatle, nos Estados Unidos, não sei se esses poros são os meus ou da chinesa sentada na poltrona ao lado. Ela preenche pela quinta vez o formulário de imigração americano.
Enquanto ainda estávamos em solo, aguardando mais de uma hora dentro do avião pela autorização de decolagem do aeroporto de Pequim, ela usava um telefone celular para "traduzir" os caracteres chineses para o alfabeto ocidental. Quando precisou desligar o aparelho, apelou para um pequeno livro que devia ter escrito na capa em mandarim algo como "Inglês para viagem" ou "Guia para escrever como ocidentais". Pelo jeito, o livro não é dos melhores. Está em sua quinta tentativa e acaba de rasurar mais uma vez. Assim que a aeromoça trouxer um novo formulário, deve retomar as tentativas. Ainda bem que não é o contrário e não sou eu que tenho que escrever qualquer coisa usando os rebuscados caracteres.
O avião parece um tanto velho e os monitores de tv que têm são coletivos. Três de cada lado, sobre os corredores ao longo das fileiras de poltronas. No mais próximo de mim, a imagem está de ponta cabeça. Ainda não entendi se é uma falha do aparelho ou se faz parte do costume chinês. Não se pode duvidar de nada.
Na China é onde o improvável é comum. Onde o capitalismo invade o comunismo. Onde o velho se mistura com o novo e o tradicional esbarra no inovador. Onde o povo é livre e a informação bloqueada.
O país é uma panela de pressão, com lojas, shoppings, restaurantes, estradas, aeroportos, trens e consumo, muito consumo, numa receita borbulhante que parece estar prestes a explodir a qualquer momento e queimar toda a economia mundial. O tempero disso tem um cheiro que não sei dizer se é de alho poró, glutamato monossódico, dólar, yuan, euro ou uma mistura de tudo isso, com pitadas de alho, pimenta e suor.
- 09h50
- 03May

Crédito da imagem: Caio Salles
A China de hoje tem mais de "primeiro mundo" do que muitos outros países considerados como tal. Índices de violência próximos de zero, economia pujante e infra-estrutura. A estação de trem de Xangai, de onde saímos, dá inveja à maioria dos aeroportos do Brasil. Aliás, o aeroporto regional da cidade fica logo ao lado, praticamente no mesmo prédio, exemplo admirável de integração de meios de transporte.
Enquanto escrevo essas linhas, paramos em outra estação espaçosa, com pisos e paredes de mármore, iluminação impecável e vazia. Talvez seja o horário ou o dia que estamos viajando, mas, pelo movimento, parece que toda essa grandiosidade ainda não se paga. Ainda.
A cada quilômetro que rodamos fica mais evidente que a China está mais do que preparada para assumir a liderança mundial. O que não está pronto, está em construção. Obras e mais obras por todos os lados. Barcos carregados nos rios, industrias a todo vapor e gente, muita gente, disposta a trabalhar e consumir.
A nova classe média que surgiu nos últimos anos vive uma ânsia de consumo impressionante. Iphones, Ipods, Ipads, cabelos, sapatos, baladas, comidas, ferraris e porsches. Toda uma geração cresce com o que tem de pior e melhor do capitalismo, numa busca desenfreada pelo tempo perdido, ou não. Seus pais não tinham acesso a isso tudo, mas prepararam o terreno. Agora, o acesso que falta é ao facebook. Se é que realmente falta.
Como ouvi do skatista Edgar Vovô esses dias: "Se você olhar para as praças e parques da cidade, vai ver muita gente andando, se divertindo e realmente feliz. Se for pensar, quem tem mais liberdade? Um americano que pode acessar facebook, mas não sai de casa com medos dos mais diversos, ou um chinês, que sai livremente por aí sem se preocupar". Uma pergunta para pensar, mesmo que ignore o fato de que qualquer censura é prejudicial. Bloqueio de internet em tempos tecnológicos é fácil de contornar. Alguns chineses já o fazem, mas, mesmo podendo, o chinês não precisa estar no facebook ou qualquer outro site proibido no país para se sentir livre.
Crédito da imagem: Caio Salles
Crédito da imagem: Caio Salles
Crédito da imagem: Caio Salles
Crédito da imagem: Caio Salles
- 22h30
- 28Apr

Esta é nossa terceira manhã em Xangai. Parece ser a trigésima. Desde nossa saída do Brasil, na última terça-feira, até este domingo na China, tanta coisa aconteceu que sentimos como se estivéssemos longe de casa há muito mais tempo. A diferença de horário, de língua, de cultura e de sabores amplia a sensação de distância e de tempo. O sono não foi um grande companheiro nas últimas noites o que também atrapalha o entendimento do que de fato já passou e o que internamente sentimos.
Conhecer o diferente, ver coisas inusitadas, experimentar novas sensações enriquece a vivencia de cada dia e faz as 24 horas parecerem muito mais longas. Conforme o cérebro vai assimilando essas mudanças, o tempo passa mais rápido e aí, quando menos imaginarmos, já será hora de voltar.
A chuva chegou na costa leste da China nesse feriado prolongado e esfriou um pouco o ritmo frenético que estávamos desde nossa chegada. Sem o sol para esquentar os pensamentos e acelerar as ações, temos tempo para refletir o que já fizemos e planejar o que faremos. O primeiro dia dos X Games Asia já foi, eliminatórias na pista do street foram o aperitivo. Hoje é dia das finais do BMX vert e do In-Line street. Se a chuva deixar, teremos mais um dia daqueles de mais de 24 horas. Se não, o jeito vai ser tentar parar o tempo e encontrar outras maneiras de fazer os minutos demorarem mais para passar do que normalmente passam quando estamos em casa num domingo chuvoso como este.
- 20h45
- 26Apr
O corpo ainda tenta entender o que aconteceu. Menos de três horas de sono e já estamos acordados, se é que realmente dormimos em algum momento. Quase trinta horas dentro de aviões, três dias no calendário e apenas uma noite.
O caminho de Detroit até Xangai é uma corrida atrás do dia. Saímos sob a luz do sol nos Estados Unidos e fugimos da noite por 15 horas rumando ao oeste. O dia passou, a quinta-feira praticamente não existiu e só fomos ver a noite chegar já em território chinês.
O estômago pedia alguma coisa que não entendemos direito se era café da manhã, almoço ou jantar. Resolvemos abastecê-lo com algo típico local para ver se a adaptação é mais rápida.
Nas esquinas, os famosos espetinhos. Para começar, deixamos grilos e escorpiões de lado (até como solidariedade ao nosso amigo Claudio Grillo) para provar shimejis, shitakes e brotos de bambu.
O corpo aceitou bem, apesar de o cheiro do tempero nos acompanhar por toda a noite.

Lá pelas 03h da madrugada, o cansaço da viagem até fez com que caíssemos no sono por alguns instantes, mas só alguns mesmo. Agora, 05h30min, o sol já brilha lá fora e o olho não para fechado. O jeito é levantar e começar o dia, que tanto perseguimos nas últimas horas.
Hoje já teremos treinos dos X Games, os atletas já estão na cidade e a equipe ESPN Brasil pronta para mais uma batalha em solo estrangeiro. Vamos que vamos.
Os pistões de Detroit remetem justamente à história da cidade, berço da Ford, da linha de montagem e, consequentemente, da industrialização americana, com seus carros sendo produzidos em série. Os pistões dos carros de antes já evoluíram muito mais que o time de basquete da cidade, que já não inspira tanto nem pela defesa, nem pelo ataque.
A espera de sete horas em Detroit nos instigou a sair do aeroporto para conhecer um pouco mais. O passeio escolhido foi uma visita ao Museu Henry Ford e, na companhia de Luciano KDra Lancellotti, Renata Falzoni e Aguinaldo Melo, os convido a fazer parte dessa nossa passagem por Detroit.
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- 18h45
- 20Apr
Nesta quinta-feira, crianças em todo o país vestiram suas roupinhas de índio e foram para suas creches, escolas, colégios celebrar o Dia do Índio. Uma data comemorativa criada em 1943 por Getúlio Vargas para, assim como muitos outros dias “especiais”, lembrar daqueles que normalmente ficam esquecidos.
Claro que é legal ver as criancinhas brincando de índio e alguns colégios até aproveitarem a data para ensinar um pouco do que aconteceu com os verdadeiros “donos” da terra que hoje vivemos, mas, assim como o dia da mulher, dia do orgulho gay, dia do negro, do branco, do japonês, do italiano ou de sei lá o que, isso só demonstra o quanto a sociedade egoísta se esquece de que existem diferenças entre as pessoas, que cada um tem origem diversa e cultura própria.
Comemorar o Dia do Índio e não respeitar suas terras e sua cultura é o mesmo que se dizer ateu e celebrar o Natal. O Índio não é um animal em extinção. Sua cultura ainda vive em muitos cantos do Brasil e a riqueza deles não pode ser esquecida e ainda mais destruída. O fato de hoje termos conexão à internet em algumas aldeias e vermos tribos inteiras vestidas com roupas americanizadas não significa que eles deixaram de ser índios. As sociedades se adaptam, evoluem e aproveitam as mudanças pelas quais o mundo passa. É preciso respeito para que a evolução seja permanente.
Graças a essa troca de culturas entre sociedades diversas que os polinésios espalharam o surfe pelo mundo. Um esporte que já chegou a todos os cantos do Planeta e faz parte também da vida de índios brasileiros. Um deles, Licuri, virou personagem de um documentário curta-metragem produzido por Guile Martins. Licuri, um índio surfista, que recebeu menção honrosa no festival de Berlim, mostra uma viagem pelas belezas da costa brasileira desde o sul da Bahia até o litoral norte paulista, mesclando a cultura indígena com a cultura surfe, no melhor estilo de respeito à diversidade. Abaixo, um poquinho do que o documentário mostra. Isto sim, uma verdadeira homenagem a toda sociedade indígena.
Desde 2007, ele é o editor responsável pelo Planeta EXPN. Ele continua fazendo videorreportagens para o programa ao mesmo tempo em que desenvolve novas tecnologias de cobertura de eventos para a emissora. Em 2007, produziu um documentário na África do Sul para a ESPN Brasil, com Lawrence Wahba e em 2008 cobriu os Winter X Games
